Leia, reflita, comente...

15 de abril de 2011

Um Convite

Saudações!!!
Como estão todos?

Muito bem vamos às justificativas.

É, estivemos um pouco ausentes por aqui (sem postagens ou comentários). Na verdade estamos um pouco atarefados e por isso a falta de postagens. Mas é por uma boa causa. Gostaríamos de convidar a todos para o evento que estamos organizando. Chama-se "Deleitar, Instruir e Mover - O Ensino de História e Manoel Salgado". e tem como tema o ensino de História e o papel do professor enquanto educador e formador, reflexões trabalhadas (não só) pelo professor Manoel (já falamos sobre ele aqui).
O evento não se trata apenas de uma homenagem, muito mais que isso. Hoje, há uma necessidade de se debater sobre o ensino de historia, sobre o "fazer" historia e o que se pode proporcionar com essa prática. A reflexão sobre nosso papel, nossa responsabilidade, nossas possibilidades e potencialidades deve permear o "ofício" do historiador.
Com o ensino da historia podemos deleitar o público, o interlocutor; podemos instigá-lo, atraí-lo, despertar nele o interesse, a curiosidade e a interrogação. Da dúvida vem a instrução, a descoberta, a discussão, e o enfrentamento com novas formas de interpretação, de pensamento, novas formas de ver o mundo. E então... a comoção, a hora de mover-se, de transformar a si e os outros...
A história não é, obviamente, a unica forma de transformação, mas é a forma que escolhemos... Pensar sobre a experiência humana. Enfrentar nossos problemas através dessa reflexão é um meio de mudança. Como podemos proporcionar isso à sociedade?

Bom, o evento será realizado no dia 27 de abril, a partir das 9 horas, no auditório 91 da UERJ (9º andar). Início às 9 horas com a mesa de abertura composta pelos professores André Campos (UERJ) e Tânia Bessone (UERJ) e o Grupo de Atividades Ítaca. Em seguida, o professor Durval Muniz (UFRN), presidente da ANPUH, realizará a conferência de abertura. Pela tarde, os professores Felipe Charbel (UFRJ), Paulo Knauss (UFF), Márcia Gonçalves (UERJ / PUC-Rio), Rebeca Gontijo (UFRRJ), coordenados pela professora Lúcia Bastos (UERJ), comporão a mesa redonda "(In)formar ou Formar? - O papel do professor de História enquanto educador". Essa mesa discutirá a questão do ensino de História a partir de um vídeo gravado com o professor Manoel Salgado, em 2009, sobre essa temática.






As inscrições estão abertas e podem ser feitas no blog do evento: www.deleitar-instruir-mover.blogspot.com


Esperamos vocês!

Um abraço

24 de março de 2011

Cine Clube Ítaca

Gostaríamos de agradecer a presença do pessoal que participou no primeiro Cine Clube feito pelo Ítaca, com a exibição do filme "A vida dos outros", seguido de debate. Obrigada pela ativa participação de todos. =]
Ainda, aproveitamos esse espaço para convidá-los para, e divulgar as informações sobre, o próximo Cine Ítaca, que ocorrerá no mês de abril.

Cine Ítaca
Filme: "Utopia e Barbárie"
Dia: 13/04/11
Hora: 14h às 18h
Local: Rav 94 (9º andar, UERJ)





Feito o convite, esperamos vocês para mais uma tarde de filme e discussões.


beijoss,
M.A.

13 de janeiro de 2011

"Só de sacanagem", de Elisa Lucinda

Por um acaso assisti esse video. Ele me trouxe uma velha idéia sobre a capacidade humana da mudança, da diferença, de fazer diferente - mudar seu próprio mundo, em seu pequeno universo de convivência: família, escola, faculdade, trabalho etc. Uma possibilidade de ser ético e de promover atitudes éticas, mesmo num meio onde o que você chamaria de "justo" ou "honesto" não é levado em conta.
É preciso iniciativa, vontade... é preciso dar sentido a essa prática.
Enfim... uma indicação para que possamos refletir um pouco (ou melhor, muito). Então, vamos assistir, refletir e discutir. Não deixem de comentar! =]

Um abraço.





"SÓ DE SACANAGEM"
Por Elisa Lucinda


Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.

Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."

Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!

22 de dezembro de 2010

Reflexão acerca do individualismo, por Renan Moraes

Recebemos o primeiro texto escrito por uma pessoa que não é integrante do "Cinco de História". Porém, como já dito, o Ítaca é um espaço onde todos podem (e devem) se manifestar. Esse espaço é justamente para isso, independentemente se há concenso ou não de opiniões. Um espaço voltado para a pluralidade e liberdade de expressão. Escrevam para nós e publicaremos seu texto.

Ítaca - Cinco de História
O texto escrito reflete a opinião de seu autor, não do Ítaca.


Reflexão acerca do individualismo

Por Renan S. Moraes, 4° período de História manhã/noite, UERJ

"Sinceramente não interessa o que tem por traz das ações policias, se são politicas ou midiaticas. O importante é estabelecer a ordem e a segurança. Tenho a impressão que os srs. são radicais demasiado e isso incomoda, já pensaram nisso? algumas pessoas preferem ver o lado "bom" dos acontecimentos. Além disso a critica pela critica não traz resultado. Parem com essa maldita história da curvatura da vara. Niguém se interessa por isso. As pessoas querem viver, serem felizes (mesmo sendo palavras de ordem irracional), queremo ser enganadas as vezes, na verdade, muitas vezes. ok!"

            Esta mensagem (cujo autor pretendo preservar) foi postada em resposta a um post relativo à “guerra no Rio”, a uma carta feita pública por um partido político de esquerda. O que pretendo aqui não é falar quem está certo ou errado: o partido, o blog do qual a mensagem fora postado ou o autor da resposta. O que pretendo é demonstrar como as pessoas tomam uma posição para falar em nome de um individualismo que, como se sabe, prejudica e muito a vida em sociedade.
            Pois bem, comecemos pelas ações policiais da “guerra no Rio”. Não irei analisá-la, mas sim o que foi dito: “não interessa”. Para quem não interessa? Imagino que muitos ficam enojados (e esta é a palavra certa) do discurso dos direitos humanos. Devemos ficar “putos da vida” quando não podemos sair de casa porque existe uma guerra, ou pior, quando nosso carro é incendiado, ou ainda quando perdemos um ente querido; enfim, estas situações nos separam ainda mais de uma parcela da sociedade que vem crescendo: os criminosos. Não proponho aqui que seja feito um exercício de empatia com o criminoso – apesar disto ser interessante –, mas que pensem numa relação de parentesco com aquele que comete o crime. Isto é fugir das amarras do individualismo também. Apesar de uma tarefa difícil, talvez seja interessante tentar.
            Já que a instituição foi abordada acima, falemos da “ordem e da segurança”. Algo que me parece demasiado claro, é que a ordem e a segurança não chegarão deste modo. Fácil, por que deixou chegar a este nível? e por que fazer isto agora? Não seria por uma chance do Brasil e o Rio de Janeiro ser a vitrine do mundo duas vezes nesta segunda década do século XXI. A questão é: e depois? Mas, voltemos a “Ordem e segurança”. Um ditado popular já dizia “não se combate a violência com violência”, no caso do Rio de Janeiro este fora posta a prova. Será possível trazer a ordem e a segurança sem violência? Isto já foi tentado: CIEPs. Mas criticado por um grupo de (desculpem-me a expressão, mas deve ser dito) burgueses. Eu afirmo: sim, existe um meio de acabar com a violência sem precisar desta. Este meio demanda um tanto de dedicação por parte de todos. Mas por que não se tenta este meio? Esta questão também me parece demasiado óbvia: não se tem interesse por isto. Estamos inseridos num meio que prega algo muito forte, e aqui voltamos ao individualismo, e sair deste meio é lutar contra esta força: espero que não saia clichê, mas esta força é o capitalismo.
            Pulemos então para a próxima frase, a qual não pretendo me deter muito. Por que um discurso de esquerda incomoda? Antes de responder esta indagação, me questiono: por que um discurso de esquerda é radical e o de direita não? Simples, porque estamos inseridos num mundo de direita. Portanto, proponho-lhes um exercício que Marx elaborou: o de negatividade do mundo, negue as facilidades viciantes deste mundo e se liberte dele. Voltando a resposta da primeira pergunta, um discurso de esquerda incomoda porque propõe um mundo diferente a este.
            Torno a me questionar: qual é o “lado bom dos acontecimentos”? Moradores da zona sul se livrarão dos arrastões e terão seus carros poupados? E quanto aos outros “cantos” da cidade ou do Estado? Quais são estas pessoas que preferem ver o lado bom das coisas? O morador da Vieira Souto? Se há algo de bom neste ato, ele é enganoso, ilusório, individualista. Ele mata pessoas, deixam outras na fome, na miséria. Será que realmente há algo de bom nisto? Sim, teremos uma Copa da FIFA seguida de Olimpíadas. Mas será que o morador da Vila Cruzeiro (ou qualquer outra comunidade) terá a possibilidade de participar deste sonho patriótico, nacional? Se estiver na lista de trabalhadores da construção civil, sim. Se for um grande sortudo que conseguirá uma vaga num dos esportes das Olimpíadas, sim. Se batalhar para “vencer na vida”, talvez.
            “As pessoas querem viver, serem felizes”. Sim, quem não quer. Eu quero. Mas não à custa de outras pessoas. E, também, não queremos ser enganados. Quando votamos num político, desejamos que ele faça algo (a não ser os votos de protesto a la Tiririca). Podemos ter uma felicidade plena, sem “vencer”, “humilhar”, etc., sem trazer com ela a violência, a miséria, a fome, a destruição...
            Sem mais delongas, o que proponho aqui não é uma “Revolução” como a russa, a chinesa ou cubana, mas uma revolução de costume. Tenho ciência da dificuldade de destruir este meio, como Mercedes Sosa cantou “é um monstro grande e pisa forte” e o Coronel Nascimento ratificou “o sistema é foda”, este meio é – usando uma ilustração de uma maravilhosa professora da noite da UERJ – como uma grande engrenagem. Esta cultura de “viva e deixe morrer” destrói a sociedade que vivemos, trazendo dor não só aos moradores de favelas: quantos “zonasulinos” não perderam algo de muito importante, que gerasse uma grande dor. Na mesma página desta resposta, outra pessoa escreveu que “só vai acabar a violência urbana quando acabar a fome, a miséria e a desigualdade social". Proponho mais: a medida pacifica para se acabar com todos os males da sociedade brasileira é destruir de uma vez por todas (e aqui invoco um grande clichê) o individualismo. Muitas pessoas se iludem com isto: “então todo mundo tomará conta da vida dos outros?”; creio que o coletivismo não seja uma antípoda da privacidade. A questão não é “tomar conta da vida dos outros”, é ajudar o próximo. Dar apoio, assistência, ajuda, parece ser difícil, mas como já disse o é porque estamos inseridos no individualismo. Proponho a cultura coletivista, onde uma pessoa ajude o seu próximo independente de cor de pele, religião, opção, filosofia, condição financeira, etc. O individualismo é a barbárie, parafraseando uma mulher mui inteligente que morrera na aurora do século passado.

4 de dezembro de 2010

Reflexões sobre Responsabilidade Cidadã

Olá pessoal,

Finalmente resolvi dar o ar da minha graça, via post. Dando uma pausa nas reflexões sobre Ítaca e a viagem que é o nosso blog, venho propor a vocês uma reflexão.

Recentemente, estive no meio de uma discussão acerca da construção de um mundo melhor para as futuras gerações, eis que surge um comentário não tão inovador mais ainda bastante distinto: o da construção de pessoas melhores para o nosso mundo.

Os problemas que implicam essa frase são da ordem de uma questão básica, a qual ou todo mundo finge que não vê, ou ignoram deliberadamente pelo dispêndio que isso requer: dedicação. A sociedade de hoje é extremamente imediatista, exercer um esforço que pretende frutos no futuro é um estorvo quando só se pensa no agora. Esse tipo de pensamento conduz ao individualismo em que nós vivemos. Uma vez que se compreende o quão profundo é o problema, o quanto se está envolvido nele, as proporções colossais aos quais tomam essas questões e no que implica uma mobilização para solucioná-lo, as pessoas se desesperam, nós nos desesperamos.

Estabelecido esse ponto temos dois caminhos a seguir: ignorar e desistir, vestir a viseira do cavalo e reduzir o olhar só ao seu próprio mundo, seus próprios problemas; ou lutar contra isso. Porém, o "inimigo" é muito maior e muito mais complexo do que se imagina. Porque esses "inimigos" somos nós mesmos e o resto do país, acomodado e que banaliza a violência e corrupção, enquanto questões que na sua dimensão micro são aparentemente consideradas sem relevância ou pontuais, como a ética.

Combater esse problema não significa propor uma Revolução como aquela que nós vemos nos livros de História do segundo grau, não significa depor o presidente e instituir um novo governo, não significa romper com a ordem vigente violentamente. Significa sim se impor, se mobilizar, mas atuar principalmente na nossa micro realidade, na nossa pequena dimensão. Os atos que constantemente consideramos sem repercussão política fazem toda a diferença. Os escândalos políticos que nós testemunhamos não são tão diferentes assim quando se reduz o escopo paras as nossas próprias atitudes. A Revolução revolucionária é a realizada todos os dias, mudando uma micro-realidade, rompendo com os hábitos e os vícios, que muitas vezes somos desencorajados a enfrentar.

Alguns podem me considerar reacionário por falar contra aquela Revolução por muitos idealizada, mas se a História pode nos ensinar alguma coisa, e eu não acredito que possa, é que nas Revoluções desse tipo o resultado nunca é aquele por nós idealizado.

Alex Carneiro


29 de novembro de 2010

Sobre Ítaca

Sobre Ítaca

Sobre o solo de Ítaca muitos andam
Solo onde muitos plantam, mas nem todos colhem
Solo onde há diversidade e possibilidades de escolhas
Por entre os céus de Ítaca muitos voam
Uns voam mais alto, outros, mais baixo
Ainda há aqueles que sequer alçam vôo
Por serem muitos os que a habitam
Ítaca vive uma pluralidade
Há os que desejam partir e se aventurar mar adentro
E os que preferem o conforto de seus lares
O hábito naturaliza o olhar dos que ficam
Para os que partem, há um mundo novo
Por vezes, encontram lestrigões e ciclopes
Mas aprendem a lidar com os monstros
Se perdem e se encontram nas viagens
Viagens que Odisseu os inspirou a prosseguir
Viagens que desgastam e os fazem refletir
Pensarão nos que ficaram e indagarão porquê partiram
A lareira, a cama, a roupa, tudo está em Ítaca
Mas em Ítaca não há a incerteza do mar
Não há o confronto com os temores
Não há descobertas
Não há experiências
Então entendem o porquê da partida
Ítaca é seu porto seguro
E para ser seguro, nela não há confrontos ou descobertas
Vive-se o cotidiano com o mesmo olhar corriqueiro de sempre
Automatizado
O que as ondas do mar quebram
Sobre Ítaca escrevo agradecendo
Pois Ítaca me pôs a viajar
Proporcionou inúmeras viagens
Ítaca me fez ver com um outro olhar

M.A.

11 de novembro de 2010

Ainda sobre Ítaca(s) e viagem (Parte II)

...

Se um historiador pensa em escrever uma narrativa do passado buscando já de início chegar à determinada conclusão, se acredita já saber o “fim”, todo o percurso que se propôs a “viajar” perderá seu sentido, dado que não seria necessário viajar para isso: chegar a conclusões precipitadas sem conhecer, buscando no passado somente a constatação destas.

Olhar para os acontecimentos de nosso passado e compreendê-los apenas em função do nosso presente é um esforço vão, equivocado, pois buscará explicar os processos vividos em um contexto passado a partir de referências do presente, além de levar a visões deterministas – como pensar toda a experiência humana vivida até o momento como uma preparação, uma evolução para se chegar às sociedades atuais. Um viajante não deve sair do seu país acreditando já saber o que a viagem irá lhe proporcionar, mas sim partir do seu lugar disposto a ver a particularidade, a diferença, a especificidade do mundo do outro, e assim ser capaz de pensar outras formas de se relacionar com o mundo, outras concepções, outras formas de dar sentido ao mundo, diferentes de seus referenciais anteriores à “partida”.

O distanciamento de si mesmo, do lugar (“físico” e temporal) onde me formei como indivíduo, abre um caminho para entender que aquele passado foi também um presente. As inúmeras experiências vividas no passado atendiam a visões, relações, interesses e expectativas específicas daquele tempo e lugar. Escrever história tendo “todo o tempo Ítaca na mente” produz uma compreensão dos acontecimentos fora do contexto que lhes deu legitimidade. E o que seria isso senão matar a possibilidade de vida de um tempo que já foi um presente, que se construiu e agiu, produzindo seu próprio sentido.

Nos esquecemos que “aquele presente”, logicamente, foi vivido como tal, enfrentando os problemas de seu tempo e as expectativas de um futuro completamente incerto, indefinido. As gerações de diferentes épocas conviviam com essa incógnita. Viviam e construíam seu cotidiano com perspectivas próprias, vivendo de acordo com suas possibilidades presentes e futuras.

Quando transformamos esse presente em nosso passado, numa idéia de pertencimento e até mesmo de origem, produzimos sentidos únicos e matamos as possibilidades de viver de formas diferentes, de viver outros presentes, para os contemporâneos de determinada época, ou seja, é dizer que um certo acontecimento só poderia ter acorrido como ocorreu. Dessa forma, conseguiríamos a façanha de matar os mortos: matar a possibilidade de vida, de estar em contínuo movimento, de viver daqueles mortos – matar duas vezes, silenciando a vida que existiu naquele passado. Isso seria negar às pessoas de determinado tempo e espaço, negar ao passado, a possibilidade de ser e existir Ítacas.

“Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.”