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25 de março de 2012

As historiografias que transbordam nossas estantes

Renan S. Moraes, estudante de história do 7º p. da UERJ.

É interessante perceber de onde vêm as perspectivas que influenciam as obras históricas. E também é importante pensar o motivo de uma historiografia se fazer necessária. Porém, não é o que farei, apenas apontarei uma constatação notória para gerar discussão sobre o assunto. É visível que alguns países exportam mais historiografia que outros; neste sentido, é ainda mais notável a (in)fluência dos franceses e ingleses entre nós. Se pensarmos na historiografia do século XX então esta fluência é maior, e é aqui que eu pretendo dispensar maior atenção. Assim como uma maior atenção nas disciplinas teóricas e de críticas historiográficas.

Para começar, procuremos observar a quantidade de historiadores alemães, italianos, portugueses, espanhóis, estadunidenses, latinos americanos, orientais, etc., nas ementas dos cursos, nas bibliografias sugeridas. Elas estão cheias de Bloch, Dosse, Thompson, Hill, Hobsbawm... Apenas para um levantamento inicial e sumário, procuremos estabelecer alguns autores mais conhecidos de cada nacionalidade, que produziram no século XX. Da historiografia italiana, nos chegam os micro-historiadores Carlo Ginzburg, Giovanni Levi, Edoardo Grendi; assim como, em menor escala, Carlo Cipolla, Arnaldo Momigliano, entre outros. De Portugal só consigo lembrar do recém falecido Vitorino Godinho, e da Espanha Josep Fontana, grande historiador marxista. Na Alemanha, lembro-me de Jan e Aleida Assman, Jörn Rüsen, que não são tão conhecidos assim, e o famoso divulgador da begriffsgeschichte, Reinhart Koselleck. Do mundo oriental vem Edward Said que tem sua produção mais voltada para os estudos culturais do que para a história, e ainda podemos pensar no marxista russo perseguido pelos czaristas e pelos bolchevistas, Georgi Plekhanov que contribuiu para uma teoria dialética da história. Da América latina a influência é escassa, Lynn Hunt nascida no Panamá se radicou estadunidense, Stuart Hall se aproxima dos estudos culturais mais que da historiografia. Dos nossos vizinhos do norte, temos a canadense Natalie Zemon Davies e os estadunidenses Robert Darnton, Hayden White e Peter Gay, de origem alemã.

Para estabelecer uma relação com os autores supracitados, observemos a lista de historiadores que chegam em terras brasileiras oriundos de França e Reino Unido. Comecemos com os autores de língua inglesa. Famoso entre estudiosos brasileiros, Eric Hobsbawm é um dos maiores expoentes da historiografia marxista inglesa. Historiografia que conta com grandes nomes: Christopher Hill, Edward P. Thompson, Perry Anderson, Edward Hallet Carr. Têm-se ainda os pós-estruturalistas Keith Jenkins e Stephen Bann, os culturalistas Benedict Anderson e Peter Burke. Geoffrey Barraclough é um estudioso da história contemporânea, ASA Briggs do período vitoriano e Hugh Trevor-Roper da Idade Moderna. O número não é tão grande como dos franceses, mas a expressividade é semelhante, sobretudo com os marxistas, Hobsbawm em especial. Dentre os franceses seria preciso fazer algumas delimitações. Principais membros dos Annales: Marc Bloch, Lucien Febvre, Pierre Vilar, Fernand Braudel, Jacques Le Goff, Pierre Chaunu, Michel Vovelle, Roger Chartier, Jean Delumeau, George Duby, etc. Daqueles que não mantêm grande ligação com a revista temos: Pierre Nora, François Dosse, Philippe Áries, Michel De Certeau (estes dois últimos mantinham alguma relação com a revista), Marc Ferro, René Remond, Mona Ozouf, Jean Claude Schmitt, Antoine Prost, entre outros.

Estes levantamentos servem para pensarmos a fluência dos franceses e britânicos nos nossos cursos de história e nas nossas estantes. Longe de acusá-los de historiografias imperialistas, estes levantamentos se pretendem uma reflexão sobre como estas duas linhas entraram nas nossas ementas. Apenas apontamentos, pretendo no (possível) debate a elucidação de alguns destes pontos. No entanto, acredito que seja um válido levantamento, apesar de não consultar um grande número de ementas dos diversos cursos de história.

2 comentários:

  1. Gostei da problemática, mas achei que ela ficou sem nenhuma solução, algo vago. Tipo, é bem notório para nós estudantes de história que há um certo monopólio França-Inglaterra, mas porque isso? Qual a sua opinião?... faltou resposta e sobrou exemplo. Mas continue abordando esse tipo de tema, é totalmente necessário. E espero que a minha opinião não seja interpretada como uma atitude soberba de minha parte, longe disso querer isso.

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  2. Renan Siqueira Moraes25 de março de 2012 11:55

    Pois é, a intenção é justamente esta, fazer apontamentos. Obrigado pelo comentário. A "solução do problema" é o que estou estudando, falta-me ainda um longo e arduo caminho, mas creio que todo percurso precisa de um ponta-pé inicial, e com este texto eu botei meu pé na estrada. Acredito ter me esquecido de algumas coisas, alguns autores; mas isso, os nomes sempre fogem, vai se aperfeiçoando. Enfim, a construção de uma saída para os problemas aqui colocados, espero alcançar coletivamente.

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